“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Caro Borges,

Ainda estou enjoado. E não, não foi de te ter visto em cuecas a acariciar o gato na tua sala, enquanto vias o “Donas de Casa Desesperadas”. Foi mesmo das curvas. Nos últimos tempos tenho andado às voltas pelo país. Desta vez foi ao volante de uma Renault Megane ST. É um modelo da Renault altamente português, já que a marca ofereceu a possibilidade dos clientes lusos opinarem sobre o que deveria ou não deveria incluir o modelo em Portugal. Mas em qualquer país, continua a ser um modelo fiável e carregado de tecnologia.

O ST vem de Sport Tourer... no fundo é aquilo que, vulgarmente, chamamos de carrinha. E essa para mim é a grande questão. Nós, portugueses, simplificamos sempre as definições. Em Portugal, um carro nunca foi uma berlina ou uma carrinha. Eu, pelo menos, sempre me referi aos carros como “com cu” ou “sem cu”. E acho que é algo que as próprias marcas deveriam recuperar. Berlina é um nome muito esquisito e demasiado técnico. Para quando eu chegar a um stand e dizer “o que é que tem aqui com cu?”

Curiosamente, só mesmo nos carros é que que eu prefiro um sem cu. Acho-os mais modernos. Mas antigamente era isto e pronto! Com ou sem! Agora? Agora vais a um stand e tens hatchbacks, sedans e berlinas, carrinhas, pick-ups, cabriolets, roadsters e spiders, coupés, vans, todo-o-terreno, desportivos, suvs, crossovers, shooting break. Por exemplo, sabes o que é o shooting break? Não, não é um intervalo numa universidade americana para desatar tudo aos tiros. É um veículo, cuja carroçaria é uma junção de uma carrinha com um coupé! E nem todos os carros são targa! Os targas são veículos onde apenas a parte do tecto por cima dos passageiros é removível e as janelas ficam no lugar, tipo o do Porsche 911. “Ui ui! Ai ai, que tenho um targa” ou lá o que é! Antigamente como é se chamava o Porsche 911? Era o “olha o carro daquele ca#!”$”? Não era melhor? Olha eu chegar ao stand e o vendedor:

- “Então o que deseja? Uma berlina? Um suv, um sedan?”

- “Não, não... queria um modelo que vá na rua e as pessoas digam... “deves ser rico ò c”#$!%”

- “Ah, tenho um aqui com 400 cavalos!

- Mas tem cu? Então não quero.

António RAMINHOS

 

Caro Raminhos,

Antes de mais, o meu gato manda cumprimentos. Aliás, faz questão que transmita, e passo a citar: jdjdfglkdrg +p+t+pgkvmkldetg,k’5 to4o ‘’go’o4’t5’«. Penso que fui claro.

Em segundo lugar, não podia estar mais de acordo com a tua descrição. Antigamente é que era bom. Gente simples, carros assim ou assado. Hoje, escolher um carro é como ir a um restaurante. Tudo gourmet. Uma pessoa quando chega está só indecisa entre carne e peixe. Mas depois acaba a ter de escolher entre soufflé de pregado com anchovas & redução de castanhas em seu crocante ou filet comme ci comme ça mignon em cama de vegetais ao wok maturado de tenras comme il faut num banho-maria de ceviche.

Valha-nos o Autohoje, que simplifica, nos devolve à raiz, à essência. Para ti um tipo de veículo, para mim outro totalmente diverso. Nomeadamente o Audi TT Roadster. Um carro onde não se coloca a problemática shakesperiana de ser ou não ser automóvel com cu. Aqui a questão é se tens ou não tens “Thratsos”. Palavra grega para testículos (não queria ser ordinário… mas lá fui, embora não sendo no fundo o que fosse, indo ser quando era o fossemos do que se é quando se foi fondo – peço desculpa, o gato voltou a apropriar-se do teclado).

Ao volante de tal máquina relativizamos tudo o que é parvo no contexto do trânsito:

a) nomeadamente GPS que te urgem a “sair na saída” – como se fosse possível sair na entrada;

b) idas aos Correios para pagar portagens cujos registos ainda não chegaram aos ditos cujos Correios. O tempo que ganhas na estrada perdes, a triplicar, ao balcão;

c) peões que carregam naquele botão do semáforo que alegadamente lhes dará a necessária luz verde, com a mesma fé daquele nosso amigo que assedia a bailarina da discoteca às 4 da manhã - convicto de que vai conseguir dizer-lhe algo que ela nunca ouviu;

d) mecânicos que matutam, reflectem, ponderam e, do alto da sua sapiência, interrogam: “Já viu se tem gasolina?”.

Enfim, um assombro de carro. Resta revelar, em primeira mão e “rigoroso exclusivo” (como se existissem ‘mais ou menos exclusivos’), o significado da sigla mágica – AUDI: Automóvel Único Destinado a Indivíduos-huh-manifestamente-sortudos. Mais ou menos isto.

Luís Filipe BORGES

 

Assine Já

Edição nº 1446
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes