Nota preambular: a foto que acompanha esta crónica não é minha, não conheço o autor, chegou até mim via redes sociais sem crédito ao autor; e é pena. Gostava muito de dizer que o fulano-de-tal fez o boneco do dia, do mês, do ano. (A outra foi roubada à TV dinamarquesa Viasat e estou seguro que não se aborrecem com a publicidade gratuita).

Num belo domingo de pré-agosto, estávamos nós colados à TV a ver o pódio do Grande Prémio da Hungria e lá estava ele, sentadinho na espreguiçadeira que tão habilmente ali puseram. Pôs-se em pé, claro, para respeitar os hinos nacionais, depois voltou a sentar-se para o boneco, com um cartaz que muito a-propositadamente dizia «a Fórmula 1 deseja-vos boas férias». Fernando Alonso, numa espreguiçadeira, ao lado de um desenho de Fernando Alonso numa espreguiçadeira. Que boneco.

Fernando Alonso é bem capaz de ser o novo «King of Cool». Ferve em pouca água, não tem muito bom feitio, é um piloto fora de série e, de há uns três anos para cá, desenvolveu um sentido de humor acima da média. Muito acima da média para os tradicionais cinzentões da Fórmula 1. Fernando Alonso só não é o «Master of All Coolness» porque existe um senhor chamado Valentino Rossi, que corra bem ou corra mal, rebenta com qualquer escala de sentido de humor – foi o tipo que pôs um coro de anjos a cantar para ele, que se vestiu de Robin dos Bosques num pódio, que contratou um ator para aparecer na grelha de partida a assinar um contrato fictício quando se estava a preparar para renovar contrato. E olhe que são três entradas de uma lista de dezenas (centenas?). Rossi também tem os seus dias maus e também adquire mau feitio ocasionalmente, mas na minha tabela vai ser sempre o mais «cool» de todos os «cool».

Pois este fim de semana, em que coincidentemente completou 36 anos de vida, Fernando Alonso esteve ao seu nível. Esteve ao nível dos seus pergaminhos, com um carro difícil, soberbo a curvar, fraquinho a aumentar de velocidade. Ser sexto com um McLaren Honda de 2017, num circuito em que todos ficaram a uma volta do vencedor menos os seis primeiros, é uma proeza. Não é uma vitória, mas para a McLaren (sobretudo para a Honda) é parecido. E o rei de Oviedo, com a sua infindável «coolness», foi fazer o que os ingleses definem como «steal the show» e os brasileiros traduzem para «roubar a cena»: chamou quase tanta atenção para si como os que estavam no pódio, deu que fazer ao realizador e uma dor de cabeça aos fotógrafos que não podiam perder nenhum dos dois bonecos. Ele tinha que marcar o seu grande momento, porque pode não voltar a ter um. Em Singapura pode não dar para fazer outro resultado assim, no México não deve dar, em Interlagos também não, e depois ele vai e nunca mais volta.

Não sei se não teremos assistido ao ultimo momento de celebração de Fernando Alonso na Fórmula 1. É provável que sim. Eu gostei de ver e, caramba, até os não-fãs de Alonso gostaram de ver. Só os cinzentões é que não gostaram de ver, mas os cinzentões nunca gostam de nada. A não ser do cinzento, gostam do cinzento. Isto aconteceu no fim de semana em que o «Prince of Cool», ou talvez o maior de todos os candidatos a ser o novo «King of Cool», deixou o circuito menos «cool» do que habitualmente. Foi posto fora após apenas duas curvas (nunca lhe tinha acontecido na carreira…) pelo colega de equipa, o impetuoso Max Verstappen, e estou seguro que a penalização ao holandês não arrefeceu nada a ira de Daniel Ricciardo, que chegou à box da Red Bull a pé, quase fora de si, a discutir com Helmut Marko e a precisar de um duche frio.

«Não foi inexperiência, foi imaturidade», disse, à Sky, ainda a prova decorria, na zona mista. «Isto agora é simples: ou ele age de acordo com a idade que tem [ndr, 19 anos] ou faz-se um homem e pede desculpa». E pediu. Verstappen fez uma boa corrida, apesar de tudo, acabou em cima dos Mercedes, e no final disse que o que aconteceu não foi intencional, que ele sabia que tinha errado e que iria pessoalmente pedir desculpa ao colega de equipa. Nada disso tornou o dia da Red Bull mais fácil (e eu até desconfio que teriam entrado na luta pela vitória), nada disso impediu o sorriso de desaparecer da cara de Ricciardo, que agora vai passar uns dias a Perth, apanhar umas ondas, beber dois ou três copos para voltar na Bélgica (que até é a «casa» do Max Verstappen) com o sorriso que deixou cair pelo caminho na Hungria.

E se achamos que isto foi o momento mais tenso da corrida, pois é melhor revermos a história porque a testosterona (?) estava em alta na zona mista, após as 70 voltas de uma das provas mais duras do ano. Nico Hülkenberg foi, *ahem*, cumprimentar Kevin Magnussen e disse-lhe: «mais uma vez, foste o piloto com menos sentido desportivo de todo o pelotão», interrompendo uma entrevista que o dinamarquês concedia a uma jornalista do seu país. «Suck my balls, honey», respondeu o piloto da Haas. Não leve a mal não traduzir esta parte; se não entende o que quer dizer, por favor peça que alguém lhe traduza, talvez ainda ache divertido; ou então use, por sua conta e risco, o tradutor online. «O Kevin fez bem! Não se deixou intimidar por esse rufia desse Hülkenberg!», vociferou o chefe da sua equipa, Günther Steiner. Ainda bem que vêm aí quase quatro semanas inteiras de descanso…

A Fórmula 1 vai de férias. A Ferrari teve um dia difícil, mas que acabou de forma quase perfeita no Hungaroring. A Scuderia também vai de férias (há 15 dias obrigatórios, as fábricas têm que fechar, ninguém pode voltar ao trabalho antes da semana que precede o Grande Prémio da Bélgica, a 27 de agosto), com a sensação do dever cumprido, com um piloto à frente de um campeonato e a 39 pontos da equipa que vai à frente do outro. Eu, por mim, continuo sem perceber por que motivo esta equipa se prepara para renovar contrato com Kimi Räikkönen, se não lhe dá a mínima ajuda para vencer uma corrida, mesmo naqueles dias em que ele até está a fazer tudo para ganhar a corrida. Quer dizer, perceber até percebo, mas gostava que fizesse mais sentido na minha cabeça.

Boas férias!
[PS – sobre o episódio Mercedes de ordens de equipa para trocar de posições tenho uma opinião muito própria; pode ser que em Abu Dhabi a partilhe convosco]

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